Faço janelas porque preciso abrir grafias


























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Janelaria


Ana
A minhoca Ana
conta antigo ofício:
operária do desencarne.

Primeiro rouba
animações das flores
antes das cores,
esquece distância
e mede profundidade.

Depois dobra
a musculatura das certezas,
deseleganteia o morto,
deveste os grãos,
para que a carne
livre-se dos ossos.

Por fim rasteja
viscosidade no átomo
e deixa o esquecimento
operar suas máquinas.




Alimentações

Toda manhã curva-se à mesa,
gira o café em rodamoinho
até que a vertigem traga ausência.
Livra-se do corpo dele
e enquanto os filhos não crescem
permite aos hábitos existência:
o jornal folheia sozinho suas notícias
e a xícara branca é par da negra.

Toda tarde observa seu peito,
mede o tamanho do peso
até que a dor realize algum feito.
Sem blusa, tranca-se no quarto
e enquanto os filhos não crescem
permite o duelo entre seus seios:
o esquerdo temendo as noites sem boca, morde o direito
que cansado conspira um tumor em silêncio.

Toda noite enfileira os filhos na parede e inicia a medição.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:



Alameda Barão de Penedo

Ao longo do canal nasce musgo.
O jornal embrulhava a voz do peixeiro:
perna de moça freguesa!
O surdo-mudo estendia a mão úmida
e os girinos nadavam no copo.
E a árvore um enorme tinteiro,
manchava a calçada de jambolões.

Ao longo do canal nasce musgo.
O monsenhor trazia um santo para cada dia
mas só depois que beijassem seu anel
O homem da bicicleta mostrava o pinto
e as meninas corriam de medo.
E a árvore um enorme tinteiro,
manchava a calçada de jambolões.

Ao longo do canal ainda nasce musgo,
usos e frutos acabam como em todo o lugar.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


Cinco minutos e meio


A urgência procura espelho.
Nos dedos a memória dos traços,
delineia os olhos, preenche a sobrancelha, aumenta os lábios.

Ele chega.

Esfregam-se nos azulejos e líquidos iniciam o chão.
Ela no piso frio paralisa quando, sob a saia,
surgem duros e brancos, alguns pentelhos.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


Repetições

Não abra as invenções,
deixa a janela assim enviesada.
Por hora o céu não faz dia.

Que rosto te dar, tendo nos cabelos
a lembrança da máscara?
Precede agora pausa.

As mãos tocam a amplitude do pequeno:
estar só com os botões,
fazer voltas nos contornos do azulejo.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


au jour le jour

Mastigou os girassóis
restava a última agonia
do desbotamento de um poema.

Ficaria a sós
com seus ossos e cabelos,
compreender articulações
empresta fios ao movimento.

A poltrona escolhe o sol.

Até que a carne termine seus preenchimentos,
calça um sapato negro
e ensina luto aos pés pequenos.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


coup de théatre fr Mudança repentina de situação.

1.460 dias exatos presa aos quartos dedicados. o tempo engrossa paredes.
a rotina dispôs mãos a quedas e acomodou pernas em dobraduras. a brancura
emprestou desistências de portas. aceitou o rouge por ele toda noite retocado,
sabendo seu o sangue que corava (a janela promete a casa). a repetição da
cena incorpora o hábito: o dia era recluso aos enquadramentos e a noite a
servidão dos atos. telefone eficiente e rápido. o despejo chegou pela garganta
dele, caso contrário nunca teria deixado o quarto.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


COMME IL FAUT

Empalidece a voz,
a manhã paraliza o tronco.

O frio na medula
liquidifica sonho,
escorre na perna
fraqueza e abandono.

No meio do andar, poça:
medo alagando osso.
E as vísceras, brincam:
comer outro.

Aceito sua morte para reger o descompasso do corpo.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


Lembrando dos tempos de Poetrix

Revisitação
poe(meto)
dentro
(ah!)Flora

Gosma
Minha solidão anda por paredes
deixando rastros
(melo) dramáticos.

Insisto
Não sei fazer dias
não sei passar horas.
Habito nas demoras.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


ILLUSION

Se eu pudesse assim seria
pedra a madeira aderida.
Para a feitura deixar,
o entalhe pregar meus nervos.

Sem pulso, uma liberdade:
musgo das observações.

No entanto, pedra um elemento,
água insiste centros.
Permaneço vegetal,
no tempo das vergações.

Não sei da terra que me nutre.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


ECOS DADIVOSA

Mora na oferenda dos batentes,
dependurada em seu próprio corpo.
Vive de poucos panos.

Brinda os afagos,
com a bunda e o dorso.
Cria heras nos cabelos
e um gato basta para lamber o oco.

Comove toda rua,
tem a graça dos loucos.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


FIOS

Viveu de lateralidades com a vida.
Sempre ao vidro aderida tecia.
Na roca surda surgiam peças da sina.

Cada fio com nome próprio,
escolhia trama e pontos.
Ela, assim como anjo, os cruzava.
Gostava das formas que prendiam os personagens ao pano.

O que a roca não termina, tece a aranha dos anos.
O último fio negou-se a ser o morto.
Não podendo livrar-se da tarefa,
descolou a própria imagem para emprestar contornos.

Foi encontrada sem rosto.
No pano faltava a trama
que explicasse tamanho abandono.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


OUTRAS VOZES

Às vezes ela me acorda:
cortina meia boca alta
falando de dentro pra fora
dos pesadelos deitados por cima de mim.

Penso em te fechar aos tijolos.
Mas tua boca escora os assombros
que sob controle dos lábios batentes
lá pelas tantas avisa:

- Noite de envenenamento, nua penetrou nas palavras antes mesmo que saíssem do tinteiro.


Obrigado o incontornável pela linda glosa dedicada!

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


PERDAS&GANHOS

A última janela é alta e sem parapeitos,
nessa hora o medo não tem mais tempo,
mas talvez as pernas traiam no subir dos ventos.

A vida esquece os músculos lá pelos meios,
a lembrança dos laços é a única força dos membros.

A mão vai deixar seus últimos apetrechos:
uma agulha, um terço ou a bengala do companheiro.

Convém que as vestes acompanhem o corpo,
a alma pode esfriar com a sombra,
saltando na tempestade prevista, por aquele tolo homem do tempo.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


JANELAS
(são meus fados)

O que sabe a memória das janelas
debruçada nos dias do depois ?
A beiral suposição acumulada
em frestas e as reais intenções ?

Das janelas perseguidas o que direi,
do grande número de nãos ?
Que sonho dormiu veneziano
e acordou de olhos embaçados,
por nunca se saber ao certo achado ?

Passadas a limpo,
as janelas se esquecem
do muito que foi visto.
Nunca saberei o que vazou.


NERVOS REVISITADO

Amiúde se faz o corte.
No tempo da fala
a faca despeja o lanho
e espera o último peso
para ensacar a memória.
Nos dedos,
o sangue pisado das vendas
acaricia as carnes.
A feira leva um dia,
mas a cena sangra
só algumas horas.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


CALEIDOSCÓPIO
(filme: "A liberdade é azul")

Fragmento som.
Partida em azuis
nego lágrima e cruz.

Abandono nome.
O medo serro
nos dentes de um rato.

Decomponho mito.
Casa, colchão e gozo,
traição compartilhada.

Estilhaço memória.
Ao nada devoto vida,
o estático germina.

A vida roda o mosaico:
azul compondo espaços.
Nos meus olhos música,
E a lágrima libertada.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


ESBOÇO

Eu tinha te preparado uma casinha besta:
o amor espiando na fresta da janela
os endereços da próxima cena.
fechadura sem saída
com bilhete pingando letras.
duas velas alternando sol e lua
escorrendo os segundos da impaciência.
um sacrário na despensa
escondendo a simpatia do nome preso.
na soleira da porta
tapete bordado
em terceto desesperado:

o ciúme
costura
minha pele sobre a mesa.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


REINCIDÊNCIAS


Essa dor de fruta
enfileira formigas no peito.
Pendura um balanço no braço.
Rasteja uma tarde
do alto de seu galho.
Inclina o cheiro
e num aperreio do tempo
tomba a carambola.
Quem te vê
não sabe do caldo
dentro do sorriso,
não ouviu a voz
recolher do mercado
aquele dia feliz.
Estação rápida
carregou o pé dos olhos de sóis.
Ah! Dor de fruta,
o pássaro que te come fertilize acolá!

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


REZAS

Observo o reconforto
desse pequeno oratório
do quarto de ficar.
Só dois Santos,
alumiados no pavil.
Na sombra da madeira,
o gesto e o movimento.
Lá vai pombinha
ciscando Assis,
e minha Maria
movendo Graças!

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


VIZINHA DE INFÂNCIA

Dona Celeste
a vida no varal expunha.
Secava carne, roupas
e cascas de laranja.

Cantava de pregadores na boca,
um amor de apertos.
E nas suas estirações,
fazia duetos com Altemar Dutra.

O amarrado de ervas,
nos cantos das cordas,
protegia a penduração.
Tinha peças que não torcia
por respeito às dores alheias.

Seis horas badalava o rádio.
Dona Celeste de terço na mão,
afastava a voz do peito.
Como se pecado houvesse no varal.

A torneira fechava o dia,
no seu tanque encostava minhas cismas:
Por quem Dona Celeste chora quando canta?
Por que esquenta carne se depois a serve fria?

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


TARDIA EM MIM PALAVRA PEQUENA


Uma saudade inquieta das horas chegadas na ponta do vento.
A metamorfose da cortina abria uma janela amena.
O inverno soletrava sílabas nos alardes de uma chaleira.
A pena sabia o traçado mesmo que cega à memória da mesa.
Pressentindo um vento que não tinha, balançava o brinco.
Ouvia a poesia nascendo, ainda que no ocaso não houvesse
mais nenhuma linha no firmamento.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


PASSAGEM DE TEMPOS

Passava a hora e a roupa,
dos vincos não entendia a mania de dobrar,
não havia jeitos de lhe tirar o costume.
Passava o tempo com perfeição.
O deixava liso, sem exageros conservava apenas
o melhor hábito de seus gestos.
Depois, vestia o cabide
e o convidava para dançar.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


PATETIANDO

O pato me olha
e faz interjeições com o pescoço,
eu o observo, e não tenho expressão no olho.
A estranheza vem do pato que não identifica
a ausênsia de penas no meu peito tosco.
Ficam naturezas cismando diferenças.
O pato sonha cabelos longos,
eu molho a pena e escrevo no meu rosto:
Choro

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


TRIBAL

Gosto quando posso ouvir ao longe a palavra ritmando a poesia.
Gosto de um certo ar parado circulando o poema enquanto nasce a vontade fugidia.
Bem que podia a fome, fazer poetas em qualquer esquina
eu ficaria dias esperando os dentes comerem qualquer palavra minha.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


ARTEIRA

Dobra-se
fina
a asa/papel
O bico
leve
do pássaro/sapato
baila
na flor/palavra
Tudo porque
dança
essa litografia!

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


PASSANTE

Quando a nudez gorjeia,
o nascimento escala.
Entre calçadas,
no meio fio,
vago.
Um pé saltita
o outro molha.
Que mais fazer?

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


PENTEADEIRA

Na cômoda distraída eu e tu aprisionados no algodão.
O peso da existência faz leveza no material.
Par de olhos em agonia, na bandagem fria
a madrugada arde compaixão por mim e por ti.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:


DESCOBERTA

Se fosse possível
ultrapassar o quarto,
a fonte insistente
e deixar o colo molhado,
eu sairia de pele feminina
respirando coisas seres.
Mas não posso, é demais arriscado
dividir o marco, o achado,
assim à primeira vista.

SEM LEMBRANÇAS

Eu acordava e não lembro
da escova nem do cabelo.

Queria o muro,
a vizinha
e os brinquedos lentos.

No fim da tarde,
um pai, um balde
e o tatuí na mesa
todo vermelho.

De noite a cadeira
balançava os medos,
até o sono chegar
com seus freios.

Eu acordava e não lembro
do ontem nem do amanhã.
Sem memória roubava do armário,
o novo dia de esfregar no chão.

ESCRITO POR KATIA

JANELAR:

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